Card 1 de 1 · Ironia e conotação
Texto-base: Vejamos: a ciência acaba de dar mais um passo decisivo. É claro que esse caráter decisivo é sempre transitório, e não por deficiência da ciência, que se supera a si mesma a cada dia. Não vale a pena perguntar o motivo, já que a própria ciência não o faz; essa omissão é, aliás, a forma mais moderna de objetividade de que dispomos. Passemos, então, ao novo passo decisivo, ainda que provisório: os cientistas afirmam que podem, hoje, fabricar uma bomba "limpa". Todos sabemos que as bombas atômicas fabricadas até hoje são "sujas", porque, depois de explodirem, deixam espalhado pela atmosfera o já famoso e temido estrôncio 90. Ora, isso é desagradável, pois pode acontecer de o próprio país que lançou a bomba vir a sofrer, a longo prazo, as consequências mortíferas dessa proeza — o que é, sem dúvida, uma injustiça. Pois bem: essas bombas indisciplinadas e mal-educadas serão em breve substituídas pelas bombas "n", que cumprirão sua missão com lisura: destruirão o inimigo sem riscos para quem as lançou. Trata-se, portanto, de uma conquista e tanto, não é mesmo? Com base no texto acima, julgue o item a seguir: A visão do autor do texto-base a respeito das bombas "n" é genuinamente positiva, o que é confirmado pelo uso da palavra "lisura" para caracterizar esse tipo de arma, em contraposição às expressões "indisciplinadas" e "mal-educadas", empregadas para descrever as bombas que liberam estrôncio 90 — estas sim, segundo o texto, capazes de atingir indistintamente países amigos e inimigos.
Errado: a visão do autor é irônica/crítica, não positiva, e o texto não afirma que as bombas "sujas" atingem amigos e inimigos indistintamente.
O tom do texto é de crítica sarcástica à lógica bélica: chamar as bombas "n" de "com lisura" é ironia, não elogio sincero. Além disso, o texto atribui às bombas "sujas" o risco de atingir o próprio país que as lançou (pelo estrôncio 90), e não o de atingir indistintamente amigos e inimigos — informação acrescentada indevidamente pelo item.
Fundamentação teórica
Ironia e conotação em textos literários/argumentativos.
Base científica
Análise do discurso — identificação de tom e intenção comunicativa (ironia vs. sentido literal).
Técnica de memorização
Sempre que o texto elogiar algo destrutivo com palavras "bonitas" (lisura, honestidade), desconfie de ironia.
Exemplo prático
Chamar um erro grosseiro de "brilhante solução" é o mesmo recurso irônico usado no texto sobre as bombas.
Erros comuns
Interpretar o texto literalmente, sem perceber o tom crítico do autor em relação à ideia de "bomba limpa".
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